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O CORPO DE DESEJOS

Max Heindel

 

 

Parte III

 

Capítulo III

O Efeito das Emoções no Contorno e na Cor do Corpo de Desejos

 

Cristo disse: "Deixe que sua luz brilhe". Para a visão espiritual, cada ser aparece como uma chama de luz, colorida de acordo com o temperamento, e com maior ou menor brilho na proporção da pureza de seu caráter. A ciência descobriu que toda matéria está num estado de fluxo, que as partículas que formam nossos corpos deterioram-se e são continuamente eliminadas do sistema, para serem substituídas por outras que ficam por curto tempo até também se deteriorarem. Da mesma forma, nosso humor, emoções e desejos mudam a cada momento, o velho dando lugar ao novo, numa interminável sucessão. Por isso, eles devem também ser formados por matéria e sujeitos a leis semelhantes àquelas que governam as substâncias físicas visíveis.

Vejamos como o corpo de desejos muda sob os vários sentimentos, desejos, paixões e emoções de modo a que possamos aprender a construir sabiamente o templo místico no qual habitamos.

Quando estudamos uma das chamadas ciências físicas, tais como a anatomia ou a arquitetura, que lidam com as coisas tangíveis, nossa tarefa é facilitada pelo fato de termos palavras que descrevem as coisas de que tratamos, mas, mesmo assim, o quadro mental concebido pela palavra difere de um indivíduo para outro. Quando falamos de uma "ponte", uma pessoa pode mentalizar uma estrutura de ferro no valor de um milhão de dólares, e outra pode pensar numa prancha sobre um riacho. A dificuldade que experimentamos ao transmitir impressões exatas do que queremos dizer aumenta substancialmente quando tentamos exprimir idéias sobre as forças intangíveis da Natureza, tal como a eletricidade. Medimos a força da corrente em volts, o volume em ampères e a resistência dos condutores em ohms, mas, de fato, estes termos são somente invenções para encobrir nossa ignorância sobre a matéria. Todos sabemos o que é um quilo de café, mas o maior cientista do mundo tem uma concepção exata do que volts, ampères e ohms sejam, sobre os quais ele discursa tão doutamente, tanto quanto um estudante que ouve estas palavras pela primeira vez.

Não é de admirar que assuntos suprafísicos sejam descritos por termos vagos e freqüentemente desorientadores, pois não temos palavras, em nenhuma língua física, para descrever exatamente estes assuntos e temos de confessar nossa impotência e perplexidade por não encontrarmos termos adequados para nos expressarmos a respeito deles. Se fosse possível projetar sobre uma tela cinematográfica as imagens coloridas do corpo de desejos e mostrar como esse incansável veículo muda de contorno e de cor conforme as emoções, nem assim seria compreensível para aquele que não é capaz de ver as coisas por si mesmo, pois os veículos de cada ser humano diferem dos demais na medida em que respondem a certas emoções. Aquilo que induz alguém a sentir amor, ódio, raiva, medo ou qualquer outra emoção pode deixar outro inteiramente insensível.

Inúmeras vezes, o autor observou as multidões para estabelecer comparações a este respeito e encontrou sempre algo surpreendentemente novo e diferente do que havia observado antes. Certa ocasião, um demagogo se esforçava em incitar um sindicato de trabalhadores à greve. Ele mesmo estava muito exaltado e, embora a cor básica laranja escuro fosse perceptível, estava, naquele momento, quase obscurecida por uma cor escarlate de matiz mais brilhante e o contorno de seu corpo de desejos era como o de um porco-espinho com as pontas eriçadas. Havia um forte elemento de oposição naquela reunião e, à medida que falava, podia-se distinguir claramente as duas facções pelas cores de suas respectivas auras. Um grupo de homens mostrava o escarlate da raiva, mas, no outro grupo, esta cor estava mesclada com o cinza, a cor do medo.

Era também digno de nota o fato de que, embora os homens que apresentavam a cor cinza fossem a maioria, os outros venceram, pois cada tímido acreditava estar sozinho, ou , pelo menos, com muito poucos o apoiando e, por conseguinte, temia votar ou expressar sua opinião. Se alguém que fosse capaz de perceber esta condição estivesse presente e tivesse se dirigido a cada um que manifestava em sua aura sinais de divergência, assegurando que ele fazia parte de maioria, o curso das coisas teria caminhado em direção oposta. Muitas vezes, isso acontece nos assuntos humanos porque, atualmente, a maioria das pessoas é incapaz de ver além da superfície do corpo físico e, desta maneira, perceber a verdadeira condição dos pensamentos e sentimentos dos demais.

Em outra ocasião, o autor foi a uma reunião de despertar religioso onde milhares de pessoas estavam presentes para ouvir um orador de reputação nacional. No princípio da reunião, era evidente, pelo estado da aura das pessoas, que a grande maioria tinha vindo com o único propósito de passar alguns momentos agradáveis e ver algo divertido. Os pensamentos, sentimentos e emoções da vida comum de cada um eram plenamente visíveis, mas, em alguns, a cor azul escuro revelava uma atitude de preocupação; era como se tivessem sofrido alguma desilusão na vida e estivessem muito apreensivos. Quando o orador apareceu, aconteceu um fenômeno curioso. Sabemos que os corpos de desejos estão geralmente num estado de constante movimento, porém, naquele momento, toda aquela vasta assistência reteve a respiração em atitude de expectativa, porque as cores variadas dos corpos de desejos individuais cessaram e a cor básica laranja foi perfeitamente perceptível por um momento. Logo em seguida, cada um voltou às suas atividades emocionais anteriores enquanto o prelúdio estava sendo tocado. Então, o cântico dos hinos começou e este fato revelou o valor e o efeito da música, pois, ao se unirem cantando as mesmas palavras no mesmo tom, as mesmas vibrações rítmicas em seus corpos de desejos fizeram com que parecessem um único ser naquele momento. Um bom número de pessoas estava em atitude céptica, recusando-se a cantar e a se unir aos demais. À visão espiritual, apareciam como homens de aço, vestindo uma armadura daquela cor, e, de cada um, sem exceção, desprendia-se uma vibração que expressava mais do que as palavras poderiam dizer: "Deixem-me em paz, vocês não me comoverão". Algo interior os havia arrastado até ali, porém, estavam mortalmente amedrontados de entregar-se e, por isso, toda sua aura expressava a cor cinzenta do medo que é uma armadura da alma contra interferências externas.

Terminada a primeira música, a unidade de cor e vibração desapareceu quase imediatamente, cada um voltando à sua atmosfera habitual de pensamento e, se nada mais tivesse sido feito, cada um teria voltado à sua vida interior costumeira. Porém, o evangelista, embora incapaz de ver isto, sabia, por experiência, que seu auditório não estava preparado ainda e, por isso, uma sucessão de canções foi cantada com o acompanhamento de palmas, batidas de tambores e gestos do regente, ajudado por um coral treinado. Isto reuniu outra vez as almas dispersas em um laço de harmonia; gradualmente, as pessoas foram dominadas por um religioso fervor e estabeleceu-se a unidade necessária para o trabalho seguinte. Pela música, pelas palmas do regente e pelo apelo dos cânticos, a vasta audiência tinha-se transformado em uma só, pois os homens de aço, os cépticos de cor cinzenta que se acreditavam demasiado sábios para serem enganados (quando na realidade sua emoção era medo) eram parte insignificante naquela vasta congregação. Todos os outros estavam afinados, como cordas de um grande instrumento, e o evangelista que se erguia diante deles era um artista magistral tocando com as emoções. Ele os levava do riso às lágrimas, do pesar à vergonha. Grandes ondas de cores, correspondendo às emoções, pareciam cobrir toda a audiência, tão confusas quanto magníficas. Então, vieram as invocações de costume: "Levantai para receber Jesus"; o convite para os que se lamentam, etc., e cada um desses chamados extraía de toda assistência uma resposta emocional determinada, mostrada plenamente nas cores dourada e azul. Seguiram-se mais cânticos, mais palmas e gesticulações que, momentaneamente, promoveram a unidade e deram àquela audiência uma experiência parecida com o sentimento de fraternidade universal e a realidade da Paternidade de Deus. Os únicos sobre quem a música não surtiu efeito foram os homens revestidos pela armadura azul de aço do medo. Esta cor parece ser impenetrável a qualquer emoção e, embora os sentimentos experimentados pela grande maioria fossem relativamente fugazes, as pessoas se beneficiaram com o despertar religioso, com exceção dos homens de aço.

Pelo que o autor pôde aprender, a sensação interna do medo de se render à emoção — o medo é saturnino em seus efeitos e irmão gêmeo da preocupação — parece exigir um choque que afastará a pessoa assim afetada do seu ambiente e a colocará em um novo lugar em novas condições antes que as antigas condições possam ser superadas.

A preocupação é um estado no qual as correntes de desejo não se movem em grandes linhas curvas em nenhuma parte do corpo de desejo, senão que o veículo fica cheio de redemoinhos — nos casos extremos, só redemoinhos. A pessoa assim afetada não se esforça em reagir, vê calamidades onde não existem e, ao invés de gerar correntes que levem à ação e que possam evitar o que ela teme, cada pensamento inquietante produz um redemoinho no corpo de desejos e, conseqüentemente, ela não faz nada. Este estado de preocupação no corpo de desejos pode ser comparado à água que está próxima do congelamento sob uma temperatura baixa. O medo que se expressa como ceticismo, cinismo e pessimismo, pode ser comparado a esta mesma água quando congelada, pois o corpo de desejos dessas pessoas está quase sem movimento e nada do que se possa dizer ou fazer terá poder de alterar essa condição. Usando uma expressão comum que traduz bem esta condição, diremos que elas estão "presas em uma concha" e esta concha saturnina deverá ser quebrada antes que se possa chegar a elas e ajudá-las a sair deste estado deplorável.

Essas emoções saturninas de medo e preocupações são geralmente causadas pela apreensão dos que sofrem dificuldades econômicas e sociais. "Talvez este investimento que eu fiz traga prejuízo ou perda total ; posso perder minha posição e ficar na miséria; tudo o que empreendo parece dar errado; meus vizinhos estão falando mal de mim e tentando prejudicar minha posição social; meu marido (ou mulher) não se preocupa mais comigo; meus filhos estão me desprezando". E mil e uma idéias semelhantes se apresentam à sua mente. Esta pessoa deveria lembrar-se que, cada vez que ela permite um desses pensamentos, isto ajuda a congelar as correntes do corpo de desejos e constrói uma concha de aço azulada na qual a pessoa, que habitualmente alimenta o medo e a preocupação, se encontrará, algum dia, isolada do amor, simpatia e ajuda de todos. Por isso, devemo-nos esforçar em ser alegres, mesmo em circunstâncias adversas, ou poderemos encontrar numa triste condição aqui e na vida após a morte.

No começo da Grande Guerra (1914-1918) as emoções na Europa estavam horrivelmente desenfreadas, primeiro entre os chamados "vivos" e depois entre os mortos, quando despertavam. Este despertar levava muito tempo por causa da detonação dos grandes canhões e mais ainda posteriormente. Toda a atmosfera dos países envolvidos fervia em correntes de raiva e ódio como uma nuvem de um vermelho escuro que pairava em volta dos seres humanos e sobre o chão. Então, apareciam faixas tingidas de escuro como mortalhas que sempre aparecem em súbitos desastres, quando a razão fica imobilizada e o desespero domina o coração. Sem dúvida, isto era causado pelo fato de os povos envolvidos perceberem que uma catástrofe de grandes dimensões, que eram incapazes de compreender, estava acontecendo. Os corpos de desejos da maioria giravam em alta velocidade, em grandes ondas de pulsação rítmica que falavam mais alto que as palavras: "Matem, matem, matem".

Quando duas ou três pessoas de uma multidão se encontravam e começavam a discutir sobre a guerra as pulsações rítmicas, indicando o firme propósito de agir e desafiar, cessavam, e os pensamentos e sentimentos de agitação, gerados pela discussão ou conversa, tomavam forma de projeções cônicas que, rapidamente, cresceriam a uma altura de seis ou oito polegadas e, então estouravam e emitiam uma língua de fogo. Algumas pessoas geravam uma quantidade dessas estruturas vulcânicas de uma só vez e, em outras, havia só uma ou duas ao mesmo tempo. Quando uma dessas bolhas estourava, outra aparecia em alguma parte do corpo de desejos, enquanto a discussão prosseguia e eram as chamas que emergiam delas que coloriam de escarlate a nuvem sobre a terra. Quando a multidão se dispersava ou os amigos se separavam, o borbulhar e as erupções diminuíam e se tornavam menos freqüentes, finalmente cessando e dando lugar outra vez às grandes pulsações rítmicas antes mencionadas.

Estas condições são agora (1916) raras, se é que são vistas ainda. A raiva explosiva contra o inimigo é coisa do passado, pelo menos no que se refere à grande maioria. A cor laranja básica da aura do povo ocidental é visível outra vez, e tanto os oficiais como os civis se acostumaram com a guerra como se fosse um jogo. Cada um está ansioso para superar o outro utilizando a astúcia. A guerra é agora, principalmente, um canal para a sua habilidade, mas alguns dos irmãos leigos da Ordem Rosacruz acreditam que aquela condição de raiva irá voltar de forma diferente, quando as hostilidades cessarem e as negociações de paz começarem.

Esta forma de emoção nós podemos chamar de raiva abstrata e ela difere do que é observado no caso de duas pessoas que se desentendem na vida privada, quer comecem a brigar fisicamente ou não. Vistas pelo lado oculto da Natureza, há hostilidade antes que os golpes sejam dados. Formas de desejo em feitio da adagas pontudas projetam-se umas contra as outras como lanças, até que a fúria que as gerou se esgote. Na ira patriótica não existe um inimigo pessoal, por isso as formas de desejo são mais bruscas e explodem sem abandonar a pessoa que as gerou.

Os "homens de aço" tão comuns na vida privada, onde a preocupação por mil e uma coisas que nunca acontecem cristalizam uma armadura ao redor deles, a qual permite que o velho Saturno os aprisione, estavam totalmente ausentes. O autor crê na hipótese de que a tensão do seu meio-ambiente forçou-os a se alistarem e o choque quebrou a concha. Então, a familiaridade com o perigo chegou a agradá-los. É certo que estas pessoas se beneficiaram enormemente com a guerra, pois não há estado que impeça mais o crescimento da alma do que medo e preocupação constantes.

É também um fato notável que, embora os homens envolvidos pela guerra sofram terríveis privações, a maior parte deles está cultivando um matiz de azul celeste pálido que significa esperança, otimismo e um nascente sentimento religioso, dando um toque altruísta ao caráter. É uma indicação de que aquele sentimento de fraternidade universal, que não faz distinção de credo, cor ou país, está crescendo no coração humano.

A nuvem vermelha do ódio está desaparecendo, o negro véu do desespero se foi e não há explosões vulcânicas de paixão nem nos vivos nem nos mortos, porém, até onde o autor é capaz de ler os sinais dos tempos na aura das nações, há um propósito determinado de agir com lisura até o fim. Mesmo nos lares despojados de vários membros, isto parece ser aceito. Existe uma intensa saudade pelos amigos que se foram, mas não há ódio pelos inimigos terrenos. Esta saudade é compartilhada pelos amigos no mundo invisível e muitos estão atravessando o véu, pois a intensidade da saudade desperta no "morto" o poder de manifestar-se, atraindo uma quantidade de éter e gás que freqüentemente é extraída do corpo vital de um amigo "sensitivo", da mesma forma que uns espíritos materializantes usam o corpo vital de um médium em transe. Assim, os olhos cegos pelas lágrimas são muitas vezes abertos por um coração saudoso, de modo que entes queridos que estão no mundo do espírito são encontrados face a face, coração a coração. Este é o método da Natureza de cultivar o sexto sentido que possibilitará a todos, no futuro, saber que o homem é um Espírito imortal e que a continuidade da vida é um fato na Natureza.

 

 

 

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