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ENSINAMENTOS DE UM INICIADO

MAX HEINDEL

 

 

CAPÍTULO XXIII

CONDENAÇÃO ETERNA E SALVAÇÃO

 

Na Fraternidade temos durante a semana um número de palestras nas quais o lado intelectual de nossa natureza predomina, enquanto que o culto de domingo à noite, incluindo a pregação, se destina ao coração. Sabe-se que o objetivo da Fraternidade Rosacruz é unir o intelecto e o coração, portanto, as palestras dos domingos à noite devem ser destinadas a ressaltar o lado do coração, tocar as suas cordas. Isto é algo que necessitamos muito, até mais do que o desenvolvimento intelectual. Na atual civilização somos tão propensos a encarar tudo pelo lado intelectual e procurar sempre uma explicação para os problemas que interessam apenas à mente, que esquecemos o que pode também apelar ao sentimento. Portanto, o orador deve esforçar-se para encaminhar o leitor para uma forma de meditação na qual as exortações se dirijam mais ao coração do que à mente, aplicando-as tanto para si como para os outros.

Durante a semana passada, o Irmão Maior, que tem sido por algum tempo o Mestre do orador, pediu que a palestra do último domingo fosse transmitida de outra forma, para que pudéssemos rever o aspecto de nossa filosofia que atualmente requer nossa maior atenção, isto é, prepararmo-nos para trabalhos superiores. Se olharmos para o homem como ele é agora, teremos apenas uma visão parcial dele, pois o homem, como tudo o mais, está em contínua mutação. E, a menos que nos preparemos para essa mutação, não poderemos experimentá-la. Portanto, é necessário termos os olhos de nossa mente continuamente voltados para o futuro, para podermos saber o que nos espera. Também é necessário esforçarmo-nos por viver à altura de nossos ideais, pois, somente vivendo-os assim é que poderemos alcançá-los à tempo.

Quando atingimos um ideal, ele deixa de ser um ideal. Houve uma época em; que comíamos carne. Obtínhamos tal alimento através de uma tragédia, tirando alguma vida. Resolvemos acabar com esse hábito e, em pouco tempo, atingimos esse ideal e tornamo-nos "vegetarianos". Alimento vegetal já não era nosso ideal, porque já o havíamos realizado. Assim, há ideais na vida espiritual que estão muito distantes, mas que devemos lutar para alcançá-los no tempo devido e viver á altura do melhor que existe em nós.

Vamos agora discorrer sobre um assunto conhecido na igreja como "condenação eterna e salvação". Isto é algo do que pensamos ser possível fugir. Naturalmente, todos já ouvimos ministros pregar sobre o inferno; falando às pessoas sobre a necessidade de meditarem urgentemente sobre o problema da salvação para não sofrerem a condenação eterna. Depois, duvidando de tal doutrina, talvez aborrecidos ao pensar que Deus criou seres para depois atormentá-los eternamente, afastamo-nos da Igreja e voltamo-nos para outras religiões ou filosofias.

Alguns abraçaram as religiões do Oriente, que pregam a continuidade da vida e o processo pelo qual o homem evolui e futuramente se torna um deus. Talvez, ao estudar essas doutrinas, adquiram a idéia da infinidade do tempo e, por isso, ficam desacreditados para o Mundo Ocidental, pois há os que pensam que a infinidade do tempo torna desnecessária qualquer dedicação e trabalho como fazemos aqui. Ao Mundo Ocidental também foi dada a doutrina que ensina a "condenação eterna e a eterna salvação" e, embora não acreditemos nisso da maneira ortodoxa como são ensinadas, não obstante, essas duas doutrinas contêm uma grande verdade.

A sua compreensão inteligente depende da origem da palavra "eterna". Se nos reportarmos à Bíblia grega, encontraremos a palavra "aionian". Procurando no dicionário veremos que esta palavra significa "que dura séculos - por um ilimitado período de tempo". A carta de Paulo a Filemon, onde ele fala do retorno do escravo Onésimo, diz: "Talvez fosse bom que ele lhe fosse tirado por uns tempos, para que volte para você para sempre (aionian)". Nem Onésimo nem Filemon eram imortais, portanto, "aionian" só pode significar uma parte da vida, e não a eternidade. Portanto, vemos que esta última não tem o sentido que lhe foi dado. Mas, em que sentido devemos tomá-la?

Quando olhamos o mundo ao nosso redor e contemplamos o processo de evolução, aprendemos que, através de toda a peregrinação do espírito desde o barro até o deus, há uma progressão perpétua; há muitos estágios e muitos pontos em que o espírito descansa um pouco, para depois dar um passo à frente. Nós que estudamos em nossa filosofia as várias épocas e períodos, lembramo-nos que foi afirmado que a primeira separação real das pessoas teve lugar na última parte da Época Lemúrica. Havia, então, o que pode ser chamado de um povo escolhido, devido a uma certa divisão no corpo de desejos de algumas pessoas que viviam na Terra naquela época. Nos seres onde o corpo de desejos houvesse sofrido uma divisão, de modo a haver alguma matéria de desejos superior em sua formação, o espírito humano ou Ego podia penetrar e, dessa forma, tornavam-se homens como os conhecemos hoje. Essa foi a primeira raça. Depois, gradualmente, outras raças formaram-se: sete durante a, Época Atlante e cinco na Época Ária. Haverá mais duas nesta Época e uma na Sexta Época; então, as raças desaparecerão.

Enquanto se efetua este processo de evolução, um vastíssimo grupo de espíritos vem continuamente progredindo de estágio em estágio, não obstante, muitos atrasados ficam pelo caminho. Mesmo quando ainda não éramos conscientes, alguns não progrediam com os de sua classe, e, como não eram tão adaptáveis como os outros, não podiam dar o passo seguinte na evolução. Chegamos agora ao ponto em que as mudanças acontecem rapidamente, onde o tempo entre duas raças é mais curto do que antes. Assim, os Irmãos Maiores consideram as dezesseis raças de um modo que justifica chamá-las "os dezesseis caminhos da destruição".

Aqui temos a nossa lição. Há um passo para cada um de nós, de uma raça para a seguinte. Nós viemos através das raças da Época Lemúrica; atravessamos as sete raças Atlantes, depois a primeira das raças Arianas. Temos evoluído sempre. Todas as vezes temos sido bem sucedidos na passagem dos pontos onde a divisão foi realizada e, dessa maneira, alcançamos a salvação. É exatamente como as crianças na escola, que cursam desde o jardim da infância até a universidade. Algumas são reprovadas e obrigadas a ficar para trás a fim de assimilar o que não aprenderam no ano anterior, mas, uma nova oportunidade é-lhes dada. Sempre alguns Egos ficam para trás e outros, mais diligentes, seguem à frente.

Coloco esta questão para o leitor e para mim, para ser respondida esta noite. Vamos ficar entre os atrasados ou vamos evoluir como devemos e podemos? Tendo recebido esta maravilhosa doutrina e conhecido a excelsa verdade da continuidade da vida, não podemos hesitar e dizer para nós mesmos: "Temos muito tempo. Não acreditamos nessa doutrina de condenação eterna; sabemos que todos seremos salvos no devido tempo". Mas alguns conseguirão antes que os outros, e outros ficarão para trás. A questão é: Seremos nós uma ajuda ou um obstáculo para a raça? Atualmente encontramo-nos entre os primeiros diante do Mundo Ocidental e nossa filosofia expõe melhor do que qualquer outra os problemas da vida. Vamos usá-la de maneira prática esforçando-nos por vivê-Ia nas nossas vidas diárias?

Não importa no que acreditemos, mas como vivemos. Isto não é só uma questão de fé, mas é mostrar a nossa fé por obras. Colocamos nossos ideais em nosso dia a dia? As pessoas que estão ao nosso redor e que nos observam, vêem em nós o que ou o que não devem ser. Ouvimos estes ensinamentos todos os domingos, aprendemos as lições da vida, meditamos sobre a palavra "servir". No entanto, estamos vivendo de acordo com esse ideal? Estamos servindo no mundo? Saímos pelo mundo praticando estes princípios e vivendo uma vida em concordância com os ensinamentos que nos são dados aqui? Nenhum de nós pode dizer que o fazemos com o melhor de nossos esforços. Deixamos muito a desejar. Então, perguntamos: "Esse ideal é muito elevado?" Não, não é. Há uma maneira pela qual podemos viver diariamente melhor, e vamos mencioná-la.

Os estudantes e leitores que não praticaram ainda os exercícios recomendados em nossos livros, devem seriamente pensar em fazê-lo. Eu os aconselho a começar, porque se sentimos em nós mesmos algum crescimento, seja ele notado ou não pelos outros que nos cercam neste mundo, o progresso existe. Devemos examinar nossas pensamentos e ações a cada dia, e assim, individualmente, conquistar uma vida melhor, tornando-nos homens e mulheres mais nobres. Os dois exercícios Rosacruzes não são difíceis e requerem muito pouco tempo. Não devemos empregar o tempo que pertence ao nosso trabalho para nosso próprio desenvolvimento. Isto seria tão errado como tirar o pão da boca das pessoas da família e comê-lo. Todo e qualquer egoísmo deve ser evitado. Devemos empenhar-nos por melhorar dia a dia, capacitando-nos a irradiar vida mais abundante sobre a Fraternidade.

Os probacionistas que estão praticando os exercícios e, deste modo, identificando-se com os Ensinamentos Rosacruzes, exercerão uma influência mais proveitosa e intensa do que seria possível de outra maneira. Portanto, torno a insistir - e não repetiria se não fosse uma recomendação especial - que todos comecem estes exercícios e se esforcem por viver de acordo com eles, pois é somente vivendo uma vida superior que estaremos preparados para o progresso que está por vir.

Na época em que o Sol transita por um novo signo do zodíaco, a humanidade recebe um novo impulso espiritual. Esse impulso deve ter um canal por onde fluir, e esse canal deve estar preparado e capacitado a vibrar com o impulso. Se não houver pessoas preparadas que possam receber essas vibrações e transmiti-las, os ensinamentos relacionados com esse impulso espiritual não poderão vir.

Sabemos como durante estes passados mil e novecentos anos, a segunda vinda de Cristo tem sido esperada. Como no tempo dos apóstolos, alguns esperavam Sua vinda e achavam que Ele viria fundar um reino mundano na Terra. Como no passado, também nos tempos de agora encontramos pessoas esperando Sua vinda - voltando como um ser humano. Mas, como disse Angelus Silesius:

"Ainda que Cristo nascesse mil vezes em Belém

Se não nascer dentro de ti, tua alma ficará perdida.

Em vão olharás a Cruz do Gólgota,

A menos que dentro de ti, ela seja novamente erguida".

Como um diapasão afinado em determinada vibração começará a soar quando outro do mesmo tom for tocado, assim também ocorrerá conosco. Quando estivermos afinados com as vibrações de Cristo, seremos capazes de expressar o amor que Ele veio ensinar aos homens, o qual procuramos demonstrar por meio do nosso serviço todos os domingos à noite. Enquanto não vivermos à altura desse amor e reconhecermos o Cristo interno, não poderemos ver o Cristo externo. Por isso, vamos rever o pequeno poema:

"Não desperdicemos nosso tempo ardentemente desejando Feitos brilhantes, mas impossíveis;

Não fiquemos indolentemente esperando

O nascimento de asas angelicais visíveis.

Não desprezemos as pequenas luzes brilhando,

Pois nem todos podem ser uma estrela reluzente;

Mas vamos realizar nossa missão, iluminando

O lugar onde estamos presentemente".

 

CAPÍTULO XXIV

O ARCO NAS NUVENS

 

Devo dar algumas explicações preliminares, algumas razões porque a matéria contida no "O arco nas nuvens" é levada ao conhecimento do leitor. Recentemente ditei o manuscrito de um livro que estou desde então revisando. Durante o ditado surgiram alguns pontos que deviam ser investigados, sendo um deles a força vital que penetra no corpo pelo baço. Investigando, descobri que essa força se manifesta em diferentes cores, e que nos vários reinos da vida ela opera de maneira diversa. Há muito ainda para ser investigado antes de trazer a informação ao público. Um amigo, ao ler parte do manuscrito, mandou buscar em sua biblioteca em Seattle, um livro publicado há mais ou menos quarenta anos atrás chamado "Princípios de Luz e Cor" por Babbit. Consultei esse livro e achei-o muito interessante, escrito por um homem que era vidente. Depois de estudar o livro por uma hora, fiz eu mesmo algumas investigações no que resultou em novas luzes. E um assunto sério e profundo, pois a própria vida de Deus parece estar incorporada nessas cores.

Entre outras coisas, remontando à Memória da Natureza no que se refere à luz e à cor, cheguei ao ponto onde não existia a luz, como foi descrito no "Conceito Rosacruz do Cosmos": Depois segui os diferentes estágios da formação dos planetas até o momento em que o arco foi visto nas nuvens. Fiquei tão impressionado com essa investigação que minha devoção cresceu.

A Bíblia afirma que "Deus é Luz", e nada nos pode revelar a natureza de Deus tão claramente como esse símbolo. Se um vidente voltasse para o passado distante e obscuro, e olhasse para esse planeta na época da sua formação, vê-lo-ia como era no princípio, uma nuvem escura, informe, surgindo do Caos. Depois veria essa nuvem de substância virgem transformada em luz pelo Fiat Criador - sua primeira manifestação visível, uma névoa de fogo luminosa. Em seguida, houve uma época em que a umidade se acumulou ao redor dessa névoa de fogo e, mais tarde, chegaria o período conhecido como o Período Lunar. Mais tarde ainda, viria o estágio mais escuro e mais denso chamado Período Terrestre.

Na Época Lemúrica, a primeira incrustação da Terra começou quando a água fervente, em ebulição, foi evaporada. Sabemos que quando a água ferve e referve, ela deixa uma marca na chaleira. De maneira semelhante, a ebulição da umidade externa da bola ígnea da Terra formou uma crosta dura que constitui a superfície da Terra.

No que se refere à época seguinte, a Bíblia diz que não chovia na Terra, mas que uma névoa se elevava dela. Naquela época, fluis da terra úmida uma névoa que a envolvia completamente. Portanto, era impossível ver a luz do Sol como a vemos hoje. O Sol tinha a aparência de um arco de luz numa noite escura; ao redor dele havia uma aura. No início do Período Atlante, nós vivíamos nessa atmosfera nebulosa. Mais tarde, a temperatura foi gradativamente caindo e a umidade foi-se condensando em água, forçando finalmente os Atlantes a saírem de seus domínios através de um dilúvio, como assinalam as várias religiões.

Na época em que essa atmosfera nebulosa envolvia a Terra, era impossível a existência do arco-íris. Geralmente esse fenômeno ocorre quando há uma atmosfera clara em certos lugares e uma nuvem em outros. Então, chegou a época em que a humanidade contemplou o arco-íris pela primeira vez. Quando vi esta cena na Memória da Natureza fiquei maravilhado. Havia refugiados que foram obrigados a sair da Atlântida, continente hoje parcialmente submerso no Oceano Atlântico, que inclui outras partes que atualmente são conhecidas como Europa e América. Esses refugiados foram guiados para o Leste até atingir um lugar elevado onde a atmosfera estava parcialmente clara e onde viram por cima o céu claro. De repente, apareceu uma nuvem, e dessa nuvem saiu um relâmpago. Ouviram o reboar do trovão, e eles, que haviam escapado ao perigo das águas e fugido sob a orientação de um guia que reverenciavam como Deus, voltaram-se para Ele perguntando: "O que foi? Vamos ser enfim destruídos?" Ele apontou para o arco-íris na nuvem e disse:

"Não, pois enquanto esse arco estiver na nuvem, assim também as estações se seguirão umas às outras, em sucessão ininterrupta". E o povo com grande admiração e alivio contemplou esse arco promissor.

Quando consideramos o arco como uma das manifestações da Divindade, podemos aprender algumas lições maravilhosas de devoção. Quando ficamos atemorizados diante do relâmpago e do trovão, o arco-íris no céu deve provocar sempre no coração humano uma admiração pela beleza de sua composição de sete cores. Não há nada que se compare a esse arco maravilhoso, e gostaria de chamar a atenção para alguns fatos físicos referentes a ele.

Em primeiro lugar, o arco-íris nunca aparece ao meio-dia. Isso ocorre sempre depois que o Sol atravessa mais da metade da distância desde o meridiano até o horizonte. Quanto mais perto do horizonte o Sol estiver, maior, mais claro e mais belo ele será. Nunca aparece num céu sem nuvens. Normalmente tem como fundo a nuvem escura e sombria, e sempre o vemos quando damos as costas ao Sol. Não podemos olhar em direção ao Sol e, ao mesmo tempo, ver um arco-íris. Quando levantamos os olhos para o arco, ele aparece como um semi-círculo acima da Terra e de nós. Quanto mais alto estivermos, maior visão teremos dele e, nas montanhas, quando atingimos uma altura suficiente acima do arco, nós o vemos como um círculo sétuplo -sétuplo como a Divindade da qual é a manifestação.

Com esses fatos físicos diante de nós, consideremos a interpretação mística do assunto. Na vida comum, quando estamos no apogeu de nossa atividade física, quando a prosperidade está no máximo, quando tudo nos parece brilhante e claro, então, não temos necessidade da manifestação da luz e vida divinas. Não temos necessidade desse acordo que Deus fez com o homem em sua entrada na Época Ária. Nós não nos importamos com uma vida superior; nosso barco navega em mar de rosas e não nos preocupamos com nada mais; tudo está tão bom para nós aqui, que parece não haver motivo para olharmos para o além.

Mas, de repente, vem a tempestade, o momento em que as tristezas e os aborrecimentos se abatem sobre nós. A borrasca do desastre rouba-nos toda base física, deixando-nos, talvez, solitários num mundo de sofrimento. Então, quando desviamos nossa atenção do sol da prosperidade material, quando olhamos para a vida superior, veremos sobre a nuvem escura do desastre, o arco indicando o pacto entre Deus e o homem, mostrando que podemos sempre entrar em contato com a vida superior. Talvez não seja o melhor para nós fazê-lo, pois todos necessitamos de uma certa evolução material que se consegue melhor quando não entramos em contato muito íntimo com essa vida elevada. Mas para evoluirmos, progredirmos e aspirarmos um estado cada vez maior de espiritualidade, devemos, vez por outra, sofrer inquietações e sofrimentos para entrarmos em sintonia com a vida superior. Quando encararmos o sofrimento e as tribulações como um meio para atingir esse fim, então, as desgraças transformar-se-ão nas maiores bênçãos que podemos receber. Quando não temos fome, que nos importa o alimento? Mas, quando estamos famintos e temos diante de nós um alimento, não importa quão insignificante seja, ficamos muito agradecidos por ele.

Se dormimos bem todas as noites de nossa vida, não avaliamos que bênção isso é. Mas, quando permanecemos acordados, noite após noite, e desejamos ardentemente conciliar o sono com o descanso correspondente, reconhecemos o seu devido valor. Quando gozamos boa saúde e não sentimos dor ou qualquer mal em nosso corpo, esquecemos que alguma vez existiu algo como a dor. No entanto, quando nos restabelecemos de uma doença ou depois de um grande sofrimento, avaliamos bem as bênçãos da saúde.

No contraste entre os raios do Sol e a escuridão da nuvem, vemos o arco que nos acena para uma vida superior e, se ansiamos por ela, estaremos em melhores condições do que se continuássemos no caminho de uma vida inferior.

Muitas pessoas preocupam-se com ninharias. Isto me faz lembrar uma história, recentemente publicada num de nossos jornais, de um rapaz que havia subido numa escada. Enquanto subia olhava para cima e já estava em tal altura que uma queda seria morte certa. De repente parou e olhou para baixo, ficando imediatamente tonto. Quando olhamos para baixo de uma certa altura, ficamos tontos e assustados. Mas, alguém acima dele chamou-o e disse: "Olhe para cima, garoto. Suba até aqui e eu ajudarei você". Ele olhou para cima, e imediatamente a tontura e o medo desapareceram; então, continuou subindo até ser apanhado de uma janela.

Vamos olhar para cima, esforçando-nos por esquecer os pequenos tropeços da vida, pois o arco da ESPERANÇA está sempre nas nuvens. À medida que nos esforçamos por viver a vida superior e alcançar as alturas sublimes em direção a DEUS, mais veremos o arco da paz tornando-se um círculo e haverá tanta paz aqui embaixo como lá em cima. É nosso dever realizar o nosso trabalho no mundo e nunca nos esquivarmos dele. Ainda assim temos um dever para coisa a vida superior, e é no interesse desta que nos reunimos aos domingos à noite para, juntando nossas aspirações, avançarmos em direção às alturas espirituais.

Devemos lembrar que todos trazemos dentro de nós uma força espiritual latente, que é maior que qualquer poder no mundo, e como não está desenvolvida, somos responsáveis pelo seu uso. Para aumentar esse poder devemos dedicar parte de nosso tempo livre ao cultivo dessa vida espiritual para que, quando a nuvem da desgraça se abater sobre nós, possamos com o auxílio dessa força encontrar o arco dentro da nuvem. Como o arco é visto depois da tempestade, assim também quando pudermos ver o brilhante arco-íris em nossa nuvem de dor, o sofrimento estará no fim e o lado luminoso começará a aparecer. Quanto maior for a provação, maior será a necessidade da lição. Quando trilhamos o caminho do erro, mais cedo ou mais tarde seremos, bondosa mas firmemente, fustigados pela realidade da vida e forçados a reconhecer que o caminho da verdade aponta para o alto e não para baixo, e que Deus governa o mundo.

 

CAPÍTULO XXV

A RESPONSABILIDADE DO CONHECIMENTO

 

Na época distante e obscura do passado, quando começamos nossas vidas como seres humanos, tínhamos pouca experiência e, conseqüentemente, menor responsabilidade. A responsabilidade depende do conhecimento. Sabemos que os animais não são responsáveis perante a Lei de Causa e Efeito, sob o ponto de vista moral. Porém, é claro, que se um animal saltar de uma janela estará sujeito à lei da causa física, porque quando estatelar-se no chão possivelmente fraturará uma pata ou sofrerá qualquer outro dano. Se um homem fizesse a mesma coisa, teria de responder à Lei da Responsabilidade, além da Lei de Causa e Efeito. Existe para ele uma responsabilidade moral, pois sabe que não tem o direito de causar dano ao instrumento que lhe foi dado. Vemos, então, que nossa responsabilidade depende do nosso conhecimento.

Como ganhamos experiência através de muitas vidas, cada vez adquirimos mais aptidões. Renascemos sempre com talentos acumulados, que são o resultado das experiências dessas vidas. Somos responsáveis, portanto, pela maneira como os usamos. É necessário que usemos esses talentos durante a vida, pois a menos que o façamos, eles se atrofiarão tão certamente como a mão não usada pende inerte para um lado. Do mesmo modo como essa mão ficará atrofiada, assim também atrofiar-se-ão nossas aptidões espirituais, a não ser que as coloquemos em ação. Não pode haver descanso, nenhuma hesitação neste caminho da evolução que estamos trilhando; devemos seguir para diante ou do contrário degeneraremos.

Evidentemente, há muita responsabilidade unida ao conhecimento. Quanto mais conhecimento tivermos, mais responsabilidade teremos. Isto está bem claro. Observando sob o ponto de vista mais profundo do cientista ocultista, há uma responsabilidade ligada ao conhecimento que não é comumente notada pela humanidade. Esta fase especial de responsabilidade é que queremos discutir aqui.

Mabel Collins afirma que a história narrada em seu livro chamado "A Floração e o Fruto, ou a História de Meta, a Necromante"; é real. Ela declara que o material para essa história veio de um país distante, de maneira muito estranha, e que pelas referências de alguém que a conhecia, há nela algumas das verdades mais profundas relacionadas com a aquisição de conhecimentos e seu respectivo uso. Ela conta-nos como Fleta no começo de sua incorporação, quando ainda estava em estado selvagem, assassinou seu amante e, desde esse assassinato, pela crueldade que o envolveu, ela obteve um certo poder. Esse poder, naturalmente de acordo com o feito, estava na linha da magia negra. Portanto, na vida de que trata a história, ela possuia o poder de um mago negro. Ela forçou seu amante a matar uma entidade para que adquirisse novo poder. Era desta forma negra que utilizava seu conhecimento.

Há aqui uma grande verdade. Todo conhecimento que não estiver impregnado de vida é vazio, sem propósito e inútil. O conhecimento pode ser obtido de várias maneiras, e deve também ser utilizado de várias formas. Uma vez adquirido, pode ser guardado num talismã e depois usado pelas pessoas para bons ou maus propósitos, segundo o caráter de quem o utilizar. Se guardado por alguém que desenvolveu a força por si próprio, será usado de acordo com a índole desse homem ou dessa mulher. Isto ocorre pelo mesmo princípio com que acumulamos eletricidade numa bateria, que pode ser transladada da estação elétrica para ser utilizada em diversas finalidades por outros e não apenas por quem a forneceu. Assim também a força dinâmica, advinda do sacrifício da vida com o propósito de adquirir poder oculto, pode ser usada dos dois modos e armazenada num talismã.

Vemos este grande fato particularmente descrito na lenda de Parsifal. Nesta bela lenda, o sangue purificador do Salvador, ofertado em nobre sacrifício próprio - não tirado de outro - foi recolhido num vaso que depois se tornou um talismã e tinha o poder de conferir força espiritual aos que cuidavam dele, se fossem puros, castos e inofensivos. Temos também o símbolo da lança que causou o ferimento do qual jorrou o sangue. Este foi transformado pelo sangue purificador num talismã que poderia ser usado de várias maneiras. Durante o reinado de Titurel, o mistério do Graal era poderoso; mas, quando o Graal foi entregue para Amfortas, filho de Titurel, ele saiu armado com a lança sagrada para matar Klingsor. Então, deixou de ser inofensivo, pois queria perverter o grande poder espiritual usando-o para matar um inimigo. Embora fosse um inimigo do bem, não era certo usar esse poder para tal fim. Portanto, o poder voltou-se contra ele, que tinha deixado de ser casto, puro e inofensivo. Em conseqüência, o poder causou-lhe um ferimento que nunca sarou. É também assim em outros casos.

Lemos sobre Daví, o guerreiro manchado de sangue, que foi proibido pelo Senhor de construir o Templo. Mesmo que esse Senhor fosse um deus da guerra, tendo punido nações para fazê-las voltar à razão, Ele não poderia usar o instrumento que houvesse sido maculado pelo sangue de Suas guerras com o propósito de construir um templo. Isso teve que ser delegado ao filho de Daví, Salomão, o homem da paz. Foi-nos dito como Salomão desejou sabedoria, grande conhecimento, não para que obtivesse vitória sobre seus inimigos, não para que pudesse aumentar seu território e fazer de seu povo uma grande nação, mas para que pudesse governar melhor o povo colocado aos seus cuidados; e o conhecimento foi-lhe dado em abundância.

Aprendemos também como Parsifal, a antítese de Amfortas, era descendente de um guerreiro, um homem manchado de sangue que morreu. Através de Herzleide - aflição do coração - o filho póstumo, Parsifal, veio ao mundo. Na primeira parte de sua carreira ele usou o arco, mas, a certa altura quebrou-o, tornando-se casto, puro e inofensivo. Pelo poder dessas qualidades conservou-se firme no dia da tentação, arrebatando a lança de Klingsor, que a possuis desde o dia em que Amfortas a perdeu. Parsifal em sua peregrinação, desde o tempo em que recebeu a lança e a época em que voltou ao Castelo do Graal, foi perseguido por muitas tentações, muita tristeza, problemas e tribulações. Homens quiseram tirar-lhe a vida, e muitas vezes compreendeu que poderia ter-se salvado com a lança sagrada se a tivesse usado contra seus inimigos. Mas, ele sabia que a lança deveria ser empunhada não para ferir, mas para curar. Compreendeu o poder sagrado que o sangue do sacrifício havia conferido ao talismã, que deveria ser usado somente para os mais elevados propósitos.

Verificamos sempre que aqueles que possuem o poder espiritual nunca o usarão para qualquer propósito egoísta. Não importa o mal que os aflija, eles mantêm-se firmes sobre esse ponto. Não importa quão severamente sejam tentados; nem por um momento sonham em prostituir seu poder para propósitos egoístas. Apesar de alguém poder alimentar cinco mil pessoas que estão com fome e longe de sua fonte de provisões, ele não apanhará nem mesmo uma pequena pedra para transformá-la em pão para satisfazer a sua própria fome. Embora possa colocar-se diante de seus inimigos e curá-los, como Cristo restaurou a orelha do soldado romano, irá recusar-se a usar o poder espiritual para estancar o sangue que corre de seu próprio flanco. Ouvimos falar a respeito de homens que "outros eles salvaram, a si mesmos não salvariam". Eles poderiam sempre tê-lo feito, pois o poder é grande. Mas se o tivessem usado para esse fim, tê-lo-iam perdido; eles não tinham o direito de assim prostituir seu poder.

Há ainda um outro tipo de mistério diferente do Graal. Por exemplo, a cabeça de João Batista foi colocada numa bandeja depois dele ter sido sacrificado, e outros adquiriram um certo poder por assistir a esse espetáculo. A mitologia grega fala-nos de Argos, que tinha tantos olhos que podia ver tudo que quisesse - ele era vidente. Mas usou seu poder para um propósito errado, e Mercúrio, o deus da sabedoria, decepou-lhe a cabeça retirando seu poder. Toda vez que um homem procura usar seu conhecimento espiritual e poder de maneira errada, ele os perderá; não podem continuar a pertencer-lhe.

Mesmo quando vemos o conhecimento do ponto de vista científico, compreendemos que ele consome vida, pois cada pensamento rompe os tecidos em nosso cérebro, que é formado de pequenas células. Cada célula tem sua vida celular individual. Essa vida é destruída pelo pensamento, ou antes, a forma, é destruída e assim a vida não pode mais manifestar-se nela. Sempre há destruição de vida em qualquer direção que nos voltemos à procura de conhecimento. Há os que tiram a vida em experiências científicas por pura curiosidade. Há os que são cruéis ao tirar a vida, como na vivissecção e, quando a busca do conhecimento se baseia apenas na curiosidade, há uma terrível dívida acumulada para um dia futuro, pois o equilíbrio deverá ser, com certeza, restabelecido.

No caso de Fleta, o sacrifício de vida que teve lugar no mundo físico, foi seguido por outro sacrifício em outro mundo. Mas, através dele, ela obteve um poder que a conduziu até às portas do templo, onde se postou e pediu Iniciação. Contudo, seus motivos, como os de Klingsor, não eram puros. Ela não era casta, não estava qualificada para ter poder espiritual em toda a sua dimensão, nem foi considerada uma das auxiliadoras da humanidade. Portanto, foi banida da porta do templo e teve a morte das necromantes. Um véu pende sobre essa morte e não sabemos o que está por trás dele. Talvez essas coisas fiquem melhor quando não reveladas. Mas, a lição é bem válida, pois ensina-nos que não podemos tirar a vida nem acumular conhecimentos de uma maneira prejudicial, sem incorrer com isso numa terrível responsabilidade. A única razão satisfatória e apropriada para a busca do conhecimento é aquela onde possamos servir e ajudar a raça da maneira mais eficiente.

Na época presente, o sacrifício de vidas para obter-se conhecimento é inevitável; nada podemos fazer. Deveríamos procurar o conhecimento com o mais puro e melhor dos motivos, pois as vidas que destruímos são inumeráveis. O ocultista observando a vida que vai nascer, a vida elementar que está à procura de incorporação e que é privada de sua forma pelo processo da obtenção de conhecimento, algumas vezes fica surpreso com a vasta perda de vidas que são assim sacrificadas e imoladas sem um bom propósito. Por isso, repetimos, ninguém tem o direito de procurar conhecimento a não ser com o mais puro e melhor dos motivos.

Se, por outro lado, trilhamos o caminho do dever, se procuramos fazer bem e completamente as coisas que nos chegam às mãos, e se temos aspirações espirituais sem o propósito de forçar o crescimento espiritual, então seremos mais facilmente qualificados para obter poderes superiores. É uma bela característica dos Ensinamentos Rosacruzes não só transmitirem conhecimentos espirituais, mas também ajudarem os aspirantes a obtê-los. Devemos aprender a trilhar o caminho do dever, a viver a vida do bem. Não importa uma vida longa; muitas pessoas, como diz Tomás de Kempis, preocupam-se em viver uma vida longa. Mas isto não importa. Ou melhor, esforcemo-nos todos os dias para cumprir nosso dever; então, certamente estaremos qualificados a receber o conhecimento superior que acompanha o poder exaltado.

Não importa qual seja a nossa esfera. Sempre há um lugar onde podemos fazer uso de nosso conhecimento, não para pregar sermões, não para falar ao povo, desde a manhã até a noite, sobre as coisas que conhecemos para que eles possam admirar nosso conhecimento, mas para que possamos viver entre eles a vida espiritual, para que possamos servi-los pelos exemplos vivos de nossos ensinamentos. Essa oportunidade existe para todos nós. Não precisamos procurá-la muito longe; ela está precisamente aqui.

Tomás de Kempis expressou tudo isso da maneira que só mesmo um místico poderia fazê-lo. Ele expôs a idéia em palavras tão lindas que valeria a pena lê-Ias e ponderar sobre algumas delas em sua "Imitação de Cristo". Ele diz:

"Cada homem naturalmente desejaria saber de que vale o conhecimento sem o temor de Deus. Com certeza, um humilde agricultor que serve a Deus é melhor do que um orgulhoso filósofo que estuda o curso dos céus e negligencia a si. mesmo... Quanto maior for o seu conhecimento, mais grave será o seu julgamento, a não ser que sua vida também seja a mais santa. Portanto, não se envaideça, mas antes tema o conhecimento que lhe foi dado. Se julga que sabe muito, lembre-se que existe muita coisa que desconhece. Ninguém sabe como e quanto poderá progredir ao fazer o bem".

Por isso, lembremo-nos de que não devemos procurar o conhecimento simplesmente pelo conhecimento, mas apenas como um meio para viver uma vida melhor e mais pura, pois apenas isso o justifica.

 

CAPÍTULO XXVI - A JORNADA NO DESERTO

 

 

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